SOBRE A SALVAÇÃO

Cremos na salvação presente, imediata, completa e perfeita e na justificação do homem recebidas gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo (At 10.43; Rm 3.24-26; 10.13; Hb 5.9; 7.25).

A doutrina da salvação é uma das mais ricas em toda a Bíblia Sagrada. Ela é o grande dom de Deus aos homens: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8,9). A salvação não é uma conquista humana, e sim um dom de Deus. Nenhum ser humano deve imaginar que os seus méritos possam conquistar a salvação. Primeiramente, porque “todos pecaram”; segundo, porque só através de Jesus Cristo o homem pode ser salvo. É a salvação, como manifestação concreta da graça de Deus, que nos traz a regeneração, a justificação, a santificação, a libertação, a cura e tantas outras bênçãos. Na Epístola aos Romanos, encontramos a grandiosa catedral teológica levantada à salvação. Ali o Espírito Santo, o grande escultor divino, inspira o apóstolo Paulo a esculpir uma das suas obras-primas acerca do plano presciente de Deus para salvar o homem de seus pecados.

Etimologicamente, a palavra salvação significa “ser tirado de um perigo”, “livrar”, “curar”, “dar escape”. A Bíblia fala da salvação como a libertação do tremendo perigo de uma vida sem Deus.

A salvação tem sua origem em Deus, que estabeleceu o seu plano antes da fundação do mundo (Ef 1.4). Quando o homem (Adão), no jardim do Éden, desobedeceu a Deus, o seu pecado trouxe graves conseqüências aos seus descendentes (Rm 5.12,17-19). Porém Deus não foi apanhado de surpresa. Ele já tinha, no princípio, estabelecido o meio eficaz para salvar o homem. No livro de Gênesis, aparece a promessa de um Redentor: a “semente da mulher” (Gn 3.15; comp. com Gl 4.4 e Is 7.14). Na “plenitude dos tempos”, cumprindo-se o que fora prometido, nasce o Salvador em Belém de Judá, e, conforme orientação recebida do anjo Gabriel, enviado da parte de Deus, deram-lhe o nome de Jesus, cuja missão se acha destacada no significado do seu nome (Mt 1.21; Lc 2.11).

Nos dias de seu ministério, quando procurado por Nicodemos (Jo 3.1,2, 16), Jesus revela a razão de sua vinda ao mundo, dentro do que já havia sido estabelecido (Ef 1.4; Ap 13.8). Pela resposta de Jesus a Nicodemos — “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho unigênito, para que todo aquele que nele crê […] tenha a vida eterna” —,

entendemos que só Ele, Jesus Cristo, pode salvar (At 4.12). No plano de Deus para salvar o homem, estava incluída a morte de Cristo na cruz (Is 53.4-6; Jo 10.17,18; Hb 10.7-14). Paulo acentua a morte de Cristo, destacando que é o único meio pelo qual o homem pode ser resgatado da maldição da Lei (Gl 3.13,14).

Os três aspectos da salvação

1 Justificação. Um dos assuntos mais gloriosos da Bíblia é a justificação. Trata-se de um termo forense e significa “declarar alguém justo”, no sentido de absolvição. A justificação descreve a nova condição do homem pecador diante de Deus. O homem, antes culpado e condenado à morte eterna, recebe o perdão dos pecados e simultaneamente é declarado justo por Deus (Rm 8.33). Aos olhos de Deus, o nosso pecado não existe mais (SI 103.12; Mq 7.18,19; Rm 3.23-26). Na justificação, recebemos algo que ultrapassa o perdão, porque com o perdão recebemos a quitação dos nossos pecados; com a justificação, porém, Deus nos torna santos, como se nunca houvéssemos pecado (Rm 5.1).

  1. Regeneração.A salvação não advém de uma soma de ritos a serem praticados. Ela ocorre instantaneamente na vida de quem sinceramente crê no Senhor Jesus Cristo, e o recebe como Salvador e Senhor. Entretanto, há uma seqüência lógica a ser observada. Jesus disse: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.44). Ele também declarou: “Quando ele [o Espírito Santo] vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça, e do juízo: do pecado, porque não crêem em mim; da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais; e do juízo, porque já o príncipe deste mundo está julgado” (Jo 16.8-11). O instrumento usado pelo Espírito Santo para realizar essa obra é a Palavra de Deus: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Rm 10.17). Vemos, portanto, que na salvação dos pecados há participação efetiva do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Todavia não está restringida a liberdade de escolha do homem: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Esse é o convite feito por Jesus. Cabem ao pecador duas opções: aceitar ou rejeitar (Jo 12.47,48).

As Escrituras falam de muitos apelos feitos ao homem para que ele retorne a Deus (Pv 1.23; Mt 18.3; Jo 7.37). A conversão é a resposta do pecador convicto à chamada de Deus feita pelo Espírito Santo. Há, no arrependimento dos pecados, dois pontos a serem considerados: o lado negativo, que é o sentimento de culpa pela transgressão das leis de Deus e que leva o homem ao arrependimento, e o positivo, a fé.

O arrependimento (methanóia, no grego), que significa “dar meia-volta”, “mudança de mente”, trata-se de uma mudança de atitude em relação ao pecado, que é abandonado e recusado. O pecador arrependido reconhece a sua culpa diante de Deus, a qual é acompanhada de um sentimento de tristeza pelo pecado cometido (SI 51.1-3,12; 2 Co 7.10).

O lado positivo do arrependimento está no fato de o pecador não somente virar as costas para algo, mas também voltar-se para Deus. É uma atitude de fé, que permite ao ser humano arrependido entrar numa relação positiva com Deus. Isso enfatiza a importância da fé, que é fundamental no relacionamento com Cristo (Hb 11.6).

Concluímos que a regeneração é descrita como o abandono das coisas opostas à vontade de Deus e a entrega total em obediência a Ele. Assim sendo, é um fato que se dá simultâneo à salvação.

  1. Santificação.Uma coisa é tornar-se cristão. Outra é viver a vida cristã. Tudo que recebemos na salvação, na justificação e na regeneração se manifesta na santificação. Isso significa vida cristã na prática (1 Ts 4.3; 2 Co 7.1; Hb 12.14). A santificação apresenta três aspectos:
  2. a) Santificação posicional— Nesse sentido, ela é imediata. “Na qual vontade [Deus] que temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo feita uma vez” (Hb 10.10). Esse fato se dá na conversão do pecador: É imediato, total, e coloca o homem na posição de filho de Deus (1 Pe 1.3,4), ou seja, posicionalmente santo (Rm 1.7; Hb 3.1).
  3. b) Santificação progressiva— “Quem é santo seja santificado ainda” (Ap 22.11). Essa santificação acontece no decorrer da vida cristã. Enquanto a santificação posicional é

imediata, a progressiva é dinâmica e paulatina. Quanto mais o crente se consagra para Deus, mais santificado se torna (1 Co 7.1). A santificação progressiva aperfeiçoa-se no temor de Deus. Ela é aperfeiçoada com oração, estudo da Palavra de Deus, jejum, e através de uma vida dedicada à obra de Deus (Rm 6.12,13, 22).

  1. c) Santificação completa (absoluta)— Acontecerá por ocasião da redenção do corpo, na ressurreição (Rm 8.22,23) ou no arrebatamento, quando formos transformados.

O novo nascimento

Quando Nicodemos, cujo nome significa “conquistador do povo”, foi ter com Jesus à noite, deixou transparecer no seu argumento o próprio significado do seu nome. Ele tentou impressionar Jesus às custas de elogio: “Rabi, bem sabemos que és mestre vindo de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele” (Jo 3.2). Toda essa menção elogiosa não impressionou Jesus, que em contrapartida lhe respondeu sobre a necessidade do “novo nascimento”, o que nada tinha a ver com os elogios de Nicodemos.

Nicodemos deixa transparecer em suas palavras que não entendia nada a respeito do novo nascimento, apesar de ser ele mestre em Israel. Foi então que Jesus passou a ensiná-lo sobre o significado e como acontece o novo nascimento: “Aquele que não nascer da água e do Espírito…” (Jo 3.5).

Há quem confunda novo nascimento com batismo em água. Só que esse argumento não tem consistência por falta de embasamento bíblico. Ninguém é batizado em água para nascer de novo, porque só se batiza quem já é nascido de novo.

A palavra “água”, citada no texto, refere-se à Palavra de Deus, como o confirmam as próprias Escrituras. Paulo, em Efésios 5.26, apresenta a Palavra como água que santifica a Igreja (“[…] para a santificar pela lavagem da água, pela palavra de Deus”). Jesus também declara, em João 15.3: “Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado”. Vemos então que a Palavra de Deus é um dos elementos fundamentais para que se possa nascer de novo.

Jesus acrescenta ainda à água a expressão “Espírito”. Isso quer dizer que o novo nascimento não resulta apenas da ação da Palavra, mas também da do Espírito Santo, concordando com o que está escrito em João 16.8: “Quando ele [o Espírito Santo] vier, convencerá o mundo do pecado […]”. Assim, entendemos que, aplicando o Espírito Santo a Palavra de Deus à consciência e ao coração do pecador e recebendo este com sinceridade a verdade de Deus, acontece de imediato e de forma sobrenatural o que chamamos de novo nascimento: “Ele nos gerou de novo pela palavra da verdade […] em vós enxertada, a qual pode salvar a vossa alma” (Tg 1.18,21).

É do homem também uma parcela de responsabilidade no novo nascimento. Quando Tiago escreve que devemos receber “com mansidão a palavra em vós enxertada” e o escritor aos hebreus que “a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram”, concluímos que o homem tem a responsabilidade de aceitar a Palavra.

Com a operação da água — a Palavra de Deus — e do Espírito Santo, qualquer criatura humana pode nascer de novo. Aliás, isso continua acontecendo, quando os mensageiros de Cristo anunciam o Evangelho, levando a Palavra, sob a unção do Espírito Santo, aos que ainda não foram alcançados para a salvação.

O novo nascimento contrasta com o nascimento natural. Jesus foi enfático ao responder a Nicodemos (Jo 3.6) que o novo nascimento nada tem a ver com a doutrina da reencarnação. Isso também está claro em João 1.13, que nos mostra a grande diferença entre nascer da vontade da carne, da vontade do varão, e nascer da vontade de Deus. Por ser o novo nascimento uma obra exclusiva do Espírito Santo e do poder da Palavra de Deus, não basta nascer num lar evangélico para alcançá-lo, porque “filho de crente não é crente”.

Deus tem uma família na terra (Ef 2.20; 3.14,15) composta por aqueles que nasceram de novo conforme a recomendação de Jesus a Nicodemos: “Necessário vos é nascer de novo…”.

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